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21/01/10 - 17h50

Da perda à confusão: a aventura guarani na Garopaba

Quinta-feira. 17h02min
Tayná, o primeiro raio de sol para Edemar e toda sua ancestralidade, chega em minha casa faceira da vida. Tinha conhecido Tatiana, uma indiazinha de 2 anos. Foi paixão a primeira vista. Estava tão entusiasmada com a descoberta dessa vida que atiçou minha curiosidade, não só de conhecer Tatiana, mas toda sua família e a situação que se encontravam.


Tayná com a índia Tatiana

17h48min
Fomos até o acampamento. Chovia. Estava com medo.
Porém Tayná, mais corajosa que eu e movida pela esperança de reencontrar Tatiana, entrou no acampamento com tudo.
Fomos recebidos por duas índias. Tayná logo perguntou se precisavam de algo e lá se foi uma lista completa: comida, roupa, panela, cobertores, travesseiros, louças, etc.etc.etc. e um carrinho de bebê. Esse último item para quem???
Como quem não quer nada, lá estava ela espiando. Sorridente. Linda mesmo. Tudo aquilo que Tayná tinha me dito.


18h00min
Saímos dali com a promessa de que no dia seguinte levaríamos algumas coisas da lista. Tenho uma amiga assistente social e fui logo ver se poderia nos ajudar. Ela ligou pra FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e sabem o que eles disseram? Que não podemos interferir no modo em que vivem – no meio do lixo – e que se achamos que eles atrapalham no turismo, temos que parar de fazer doações e deixá-los morrer de fome! Pois assim retornariam para suas cidades.

Sexta-feira. 07h30min
Pensei. Pensei. Pensei. Conversei com algumas pessoas e vi os dois lados. Que os índios trazem problemas para o turismo é evidente, todo o lixo que produzem e a forma em que as crianças vivem jogadas e sujas por aí não é legal para a cidade, agora, fechar os olhos pra essa realidade e enxotá-los de nossa cidade sem saber os motivos e toda a coisa que tem por trás da situação em que vivem atualmente é que não dá!

16h25min
As doações não foram generosas, mas tinha uma razoável quantidade de comida. Estava ansioso pelo sábado, pois na entrega dos alimentos queria ter uma conversa com os índios, queria investigar, queria respostas. E tive a perda. Vi a perda. Fiquei confuso. Vi nos olhos de Edemar a confusão.


Jaza

Jaza

Sábado. 17h40min
Encontrei-me com Tayná. Estávamos com tudo que conseguimos arrecadar em mãos. O frio na barriga era inevitável agora. Partimos.

17h49min
Quem nos recebeu novamente foram as índias. Simpáticas. Agradeceram pelas coisas que conseguimos. Perguntei se poderia fazer umas perguntas pra ela – encabulou na hora – disse que não saberia responder e que chamaria seu marido. Espero receoso.
Sereno, chega Edemar. Aperto sua mão num gesto de “Sou branco, mas sou amigo”, pergunto se podemos conversar e na sua serenidade e desconfiança responde que sim. Convido-o a sentar na sua própria casa e ele pensando “Que cara folgado”, assente. Começo meu questionário.

- Como escolheram Garopaba? A iniciativa de vir pra cá partiu de quem?
Edemar – A organização quem faz é o cacique, ele é quem organiza os ônibus. Tem índio na Pinheira, na Guarda do Embaú, onde tem turismo a gente vai vender.

- Sentem falta dos costumes da cultura de vocês?
Edemar – Já estamos acostumados, não tem mais como ser igual a antes.

- Mas têm vontade de manter os costumes?
Edemar – Sim. Os rituais. Todos os anos também fazemos uma gincana pra escolher que tipo de festa vai ter naquele ano.

- E o dia do índio?
Edemar – Dia 19 é o dia do massacre, foi o dia em que o homem branco invadiu a cultura indígena.

(Putz. Toca meu celular. Desligo.)
Meio sem jeito, pergunto:

- Vocês têm celular?
Edemar – Sim.

- ( ! ) Aé? Hmm... Por acaso usam internet, tem e-mail?
Edemar – Sim.

- (!!!) Assistem televisão?
Edemar – Só na tribo, aqui não temos televisão.

- Ah, na tribo vocês tem... Assistem o que?
Edemar – Ah, novela jornal, filme, canal 4, o canal 7 às vezes é o dia inteiro de programa evangélico.

- Vocês assistem canal evangélico?!?
Edemar – Sim, nós somos evangélicos.


Edemar

Nessa hora minha cara caiu. Eu ri, de nervoso. Era só o que faltava para meu completo espanto. O índio não bastava aquilo tudo, era evangélico! Me contou que dentro da tribo tinha culto da Igreja Universal, Deus é Amor e Só o Senhor é Deus. Dentro da reserva indígena tem a evangelização e são os próprios índios que são pastores, o índio-pastor!
Perguntei sobre o dizimo, e é claro que eles dão dinheiro a igreja. A Universal! Aquela!
Me contaram que pastores foram a procura deles para apresentar Jesus.
Perguntei sobre o cacique, ele disse que continua existindo, tem o cacique, o vice-cacique, os capitães, sargentos (para nós a polícia) e os conselheiros. Além é claro da nova categoria, o índio-pastor.

Estava confuso com toda essa informação, toda essa mistura de crenças, de valores. Eles perderam a cultura, a liberdade, a identidade.
A partir daí comecei a entender o índio. Edemar, 36 anos, 4 filhos. Vi naqueles olhos uma criança. Uma criança que se perdeu dos pais e chora por dentro, não sabe pra onde ir.


Edemar

00h08min
Em pleno sábado à noite estou pensando em Tatiana. O que será da pequena indiazinha?


Tatiana

1. Vai estudar e fazer uma faculdade.
2. Vai lutar pela manutenção da sua cultura.
3. Vai virar uma pastora evangélica da igreja universal.
4. Todas alternativas anteriores.

Não consigo responder.

Naquela tarde, no final da entrevista, perguntei se poderia tirar umas fotos, ficaram envergonhados, mas concordaram, enquanto registrava aquele mundo complexo, de perda e confusão, o índio pegou sua cyber-shot e sem eu notar tirou fotos minhas com Tayná.

Autor:

MATEUS TIBURI
Texto e fotos de Mateus Tiburi, 21 anos. Ator formado pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), integrante do grupo teatral Laranja Eletrônica. É também fotógrafo e dramaturgo. Nativo de Garopaba, atualmente mora no Rio de Janeiro.

 

 
 
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